Entrevista com Voyeurs

Na fresta da janela, havia um olhar vindo de longe. O olhar de um poeta egoísta sobre a imagem que eu refletia no espelho do meu quarto. Ele criava em cima das minhas curvas, seus pensamentos virariam roteiros de cinema. De acordo com o Dicionário Online Michaelis, voyeurismo quer dizer: sexual apenas pela observação de cópula praticada por outros ou pela observação dos órgãos genitais de outrem; mixoscopia. Sempre pensei com bons olhos quando me falavam sobre voyeurismo. Imaginando o que passa na cabeça de um aficionado em roubar momentos íntimos de desconhecidos, de casais apaixonados dividindo a cama, de reencontros tão intensos que os levam ao chão entre abraços e mordidas. Tenho um grupo particular de amigos secretos que elevam a prática do voyeurismo à perfeição da arte. Alguns desses integrantes concordaram em dar uma pequena entrevista e responder algumas perguntas que aqui reproduzo. Seus nomes – obviamente foram trocados. Daniela Tati Sulepa: - Você é uma pessoa com vida sexual bem ativa, é bonita, não chora por falta de homem. O que desperta essa compulsão por espiar outras janelas na calada da noite? *Daniela*: - Não sei bem o porquê, Tati. Tem homem que se masturba com revistas, eu me masturbo com a intimidade de um casal feliz. Talvez eu seja na verdade insatisfeita, posso ter vários mas não tenho nenhum, não sei se não quero ou se não consigo. Mas participar em segundo plano, me deixa próxima de uma intimidade que, mesmo não sendo minha, considero como tal: me preocupo se um deles não chega, fico feliz quando ele manda flores pra ela, ela escolhendo uma música e se arrumando pra eles saírem e voltando com um final de tirar o fôlego. É quase um filme da vida real, criado aleatoriamente por outros em que, mesmo não sendo a roteirista, consigo imaginar as falas, as próximas cenas... Tati Sulepa: - Nunca foi pega espiando por um desses casais? *Daniela*: - Acho que não. Mas conheci a namorada dele, na padaria perto aqui de casa. Ficamos amigas e depois de um tempinho não aguentei e acabei contando que do meu apartamento dava pra ver o deles. Depois disso notei que cada vez que ela ia até a janela ela olhava pro meu e nem sempre fechava a cortina, muitas vezes parecia de propósito que ela deixava as cortinas abertas. Eu adorava, parecia que ela estava querendo se mostrar pra mim. Daniel Tati Sulepa: - Quando você se identificou como um voyeur assumido? *Daniel*: - Comecei espiando meu irmão dando uns amassos nas namoradas no quarto ao lado do meu. Os dois tinham sacada, eu pulava pra sacada dele e ficava espiando, mas nessa época eu tinha 14 anos e ele 19. Ainda nem sabia o que isso significava. Agora bem mais velho, uns 8 anos atrás eu me deparei com uma matéria sobre voyeurismo e daí, sim, foi que caiu a ficha. Com ou sem namorada acabo sempre a procura de uma janela indiscreta! (risos). Tati Sulepa: - “Janela Indiscreta” foi o primeiro filme de destaque que tratou do assunto, por sinal, graças ao mestre Alfred Hitchcock. Confessa que já assistiu mil vezes? *Daniel*: - Confesso. Mas confesso que na internet tem muito mais! (risos). Mas internet não tem graça pra mim. Hoje em dia, meus vizinhos estão muito desanimados, não sei o que aconteceu com essa gente, acho que é o stress do dia-a-dia. Tem muita gente que faz sexo em público e gosta, tem até lugares nada secretos pra essa prática, é lá que eu sacio minha sede por voyeurismo. Eles fazem, sabem que tem gente assistindo e não dão bola. Querem mais é plateia mesmo! Sorte a minha! Espero não ter despertado mais ideias em mentes perversas. Mas cuidado com as frestas e janelas. Nunca se sabe quem está espiando! Agradeço aos amigos que se dispuseram a responder sobre suas intimidades e fetiches.